Tecnologia no esporte: um mal necessário

Por Giovanni Guerreiro e João Felipe Coelho Viterbo

Exatamente há um ano, o filme “O Homem que Mudou o Jogo” (ou “Moneyball”, no original em inglês) concorria ao Oscar em seis categorias, incluindo Melhor Filme. Perdeu todas. A obra é um retrato fictício da história real do general manager Billy Beane, do Oakland Athletics, que revolucionou o beisebol através do uso da sabermétrica. Desenvolvida pelo historiador e matemático Bill James na década de 1980, a sabermétrica é a análise especializada do beisebol através de estatísticas de jogo, providenciando evidências para responder objetivamente a perguntas como “qual jogador contribui mais para o ataque do time”. Popularizada por Beane e pelo relativo sucesso de Oakland, a sabermétrica tornou-se pioneira no uso coletivo de tecnologia e dados em um esporte. Desde então, os Athletics disputaram os playoffs da MLB (Major League Baseball, a liga de beisebol dos Estados Unidos) seis vezes, mas não alcançam a tão esperada World Series – popularmente conhecida como a final da liga – desde 1990, uma década depois de adotarem o novo método. Ainda que seja difícil contestar a funcionalidade da análise de dados estatísticos, que rendeu sucesso e pioneirismo ao time de Oakland, também é impossível não notar que os troféus não chegaram. A tecnologia, portanto, eivou de dúvidas o mundo esportivo: qual é sua contribuição às modalidades?

Confira os dez anos da sabermétrica

O uso de aparatos tecnológicos na arbitragem varia entre as atividades esportivas. No futebol, sempre que um erro de arbitragem se torna protagonista de um jogo, a questão volta à tona. Horas ou dias depois, no entanto, nada é feito para que o esporte evolua. Paulo César de Oliveira, árbitro de futebol que pertence ao quadro da FIFA, considera a complexidade da questão. “Eu sou a favor da tecnologia, desde que em todos os jogos a gente a utilize. Na Copa do Mundo, poderia se utilizar. Teremos 12 sedes aqui, estádios praticamente com a mesma arquitetura, com toda a condição de se inserir um sistema para fazer este acompanhamento”, afirma.  Oliveira, no entanto, encontra um obstáculo: o princípio de isonomia. “No Campeonato Brasileiro eu já não sei se teríamos as mesmas condições. Para ter o princípio de igualdade a gente teria que adotar a tecnologia com a mesma empresa e o mesmo posicionamento de câmera em todos os jogos de um campeonato”, finaliza.

Em dezembro, durante a realização da última edição do Mundial de Clubes da FIFA, a entidade máxima de futebol realizou testes com um sistema que apontava  se a bola cruzaria ou não a linha do gol.  O presidente Joseph Blatter aprovou – mas avisou: quer o mesmo recurso durante a Copa das Confederações, que acontece entre os dias 15 e 30 de junho, no Brasil. Já Michel Platini, presidente da Uefa (União das Federações Europeias de Futebol), não esconde seu descontentamento relativo às mudanças no futebol: é contra as medidas de Blatter. A International Board, instituição que define as regras a serem utilizadas na prática do futebol, vai debater o assunto. Uma decisão favorável ao uso da tecnologia daria o caráter histórico ao Brasil de sediar a primeira Copa do Mundo com recursos tecnológicos para auxiliar as decisões do árbitro, fato muito comum em outros esportes populares praticados em todo o mundo.

Competições como as da NFL (National Football League, a liga de futebol americano), NBA (National Basketball League, a liga de basquete), ou nos mais importantes torneios profissionais de tênis, a utilização de recursos tecnológicos para auxiliar árbitros a tomarem decisões já é ingrediente imprescindível. A NBA, por exemplo, começou a utilizar a repetição dos lances duvidosos a partir da temporada 2002-2003 e, desde então, vem ampliando suas possibilidades de uso. Atualmente, os árbitros podem, a qualquer momento, consultar televisores presentes nas quadras para confirmar irregularidades.

No tênis, o controle do uso da tecnologia está nas mãos do jogador. Em cada set, os atletas podem pedir duas revisões de jogada com o objetivo de confirmar se ganhou – ou perdeu – o ponto. Caso a decisão do árbitro esteja correta, o atleta perde uma das revisões. Se o jogador estiver certo, mantém o direito a mais dois pedidos ao longo do set que está sendo disputado. Recentemente, a Comissão Europeia de Vôlei usou dos mesmos recursos do tênis para tentar mudar a prática do esporte.Na NFL, os árbitros também podem consultar os replays a qualquer momento quando há dúvida, e os treinadores podem desafiar decisões da arbitragem duas vezes em cada tempo – mas se estiverem errados, perdem um tempo técnico.

A tecnologia, contudo, nem sempre é uma aliada. Mesmo nas modalidades em que é parte integrante de uma partida, os erros seguem acontecendo. “Há lances interpretativos que a própria tecnologia não nos auxilia”, afirma Oliveira. Outro ingrediente nada desprezível é o uso dos dispositivos com conexão à internet no próprio estádio, como smartphones e tablets. “Hoje, a informação é instantânea. O torcedor na arquibancada já vê as imagens e, na seqüência, produz ofensas aos árbitros”, explica.

Apesar de certo conservadorismo por parte de dirigentes e comandantes de esportes, recursos tecnológicos quase que imperceptíveis chegam paulatinamente a outros esportes, como roupas com tecidos inteligentes, chuteiras que facilitam a corrida, entre outros adereços que já são realidade – na forma de análise de dados. O basquete  – além do beisebol – possui uma métrica própria, a APBR (Associação para Pesquisa de Basquetebol Profissional), mas que ainda não se popularizou como a sabermétrica. Mesmo esportes movidos a estatísticas, como o futebol americano, ainda não possuem um estudo matemático do tipo.

No futebol, um esporte com menos olhares estatísticos, isso se inicia com a popularização da coleta de dados. Recentemente, um serviço de análise de informações de jogadores vem chamando atenção de clubes e seleções européias. Manchester City, Real Madrid, Chelsea e até mesmo os selecionados francês e italiano aderiram ao o OptaPro, funcionalidade de precisão que permite avaliar todas as informações – em estatísticas – dentro de campo. A ferramenta, paga, desembarca nos próximos meses em solo sul-americano, quando vai acompanhar o Campeonato Brasileiro. Paulatinamente, a tecnologia – e a montanha de dados – toma seu espaço no mundo esportes. Alguns vão adotá-la, outros não. O importante é saber até que ponto ela pode chegar. Sozinha, a lugar algum. Integrada a um sistema, com equipe especializada, é possível ir longe. Quem sabe, até lá, o time de beisebol Oakland Athletics levante alguns troféus.

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Futebol para inglês (não) ver

Por Erik Reis e Vitor Geron

O Campeonato Inglês de futebol, conhecido como Premier League, é reconhecidamente um dos mais importantes do mundo. Há alguns anos, essa fama ganhou ainda mais forma depois que jogadores da elite mundial do esporte – e de diversas nacionalidades – desembarcaram em solo inglês. Contudo, os atletas do país mais tradicional no esporte, o Brasil, quase sempre foram coadjuvantes nas competições.

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Mirandinha foi o brasileiro pioneiro na Premier League

Se na Itália há registros de jogadores nascidos no Brasil atuando pela Série A do Calcio (como é chamada a primeira divisão de futebol no país) desde a década de 20 e ,na Espanha, já na década de 50, os ingleses só começaram a contratar brasileiros na década de 80. Ou quase no fim dela, em 1987. O responsável por esse êxodo foi o atacante Mirandinha, ex-jogador do Palmeiras que marcou gols importantes com a seleção brasileira contra Inglaterra e Escócia. As boas atuações chamaram atenção do Newcastle, um dos times de maior prestígio do país.

“Na época o próprio governo inglês dava preferência para os jogadores do Reino Unido, evitando que os britânicos perdessem o emprego”, afirma Mirandinha. Um obstáculo encontrado pelo ex-atleta é relativo aos altos impostos no país. “Na Inglaterra, qualquer libra que vem do clube para o atleta é taxado um percentual muito alto. Isso tirou, por exemplo, a possibilidade de o Müller (na época jogador do São Paulo) jogar no Tottenham, depois que expliquei como funcionava pra ele”, explica o ex-jogador, ao citar a época em que o colega de profissão negociou com o clube europeu. Müller foi contratado pelo Torino, da Itália, em 1988.

Outro ingrediente nada desprezível se refere aos modelos de treinamentos adotados no país. Durante duas temporadas no futebol inglês, Mirandinha afirma ter encontrado dificuldades para se adaptar ao estilo de jogo das equipes locais. Com poucos coletivos e mais treinos físicos e com campo reduzido, os treinos eram puxados. “Era muita força física, mas sempre tinha trabalho com bola. Então tinha diferença na rotina de treinos, além da alimentação e a língua, que são muito diferentes do Brasil e de países próximos da própria Europa”, destaca o ex-jogador.

Sylvinho e Juninho abrem novas portas ao futebol brasileiro

Após se destacar no Corinthians no início da década de 90, o lateral-esquerdo Sylvinho fez sucesso na Espanha e foi o primeiro brasileiro a jogar no Arsenal, em 1999. Para o jogador, a liga inglesa não é mais difícil apenas para os brasileiros. “Em conversas que tive com outros jogadores ao longo da minha carreira, um deles o francês Henry, sempre discutimos como a Premier League é mais complicada de se jogar. Um dos fatores é que não se marcam muitas faltas. Os contatos que são considerados infrações em outros países, principalmente no Brasil, na Inglaterra não são. Os times lá (na Premier League) são muito fortes fisicamente e também precisamos considerar o fator climático. Com jogos com temperatura negativa em boa parte da temporada, fica mais difícil atuar”, comentou.

O meia-atacante Juninho é quase uma exceção brasileira ao futebol inglês. Depois de duas excelentes passagens pelo Middlesbrough (1995 a 1997 e 2002 a 2004), Juninho fez história em um clube considerado mediano no país. Para ele, apesar da forte marcação na Premier League, a movimentação faz os espaços em campo aparecerem. “O jogo é mais corrido, mais leal, os jogadores não tem tanta malícia. Os juízes estão mais preparados: não marcam muitas faltas e deixam o jogo correr”, avaliou Juninho.

Mudanças no estilo de jogo

Para Mirandinha, o futebol disputado no Velho Continente mudou muito na última década: dos tradicionais longos lançamentos, o futebol inglês começou a ganhar novo corpo – e estrutura. Com uma importante contribuição da presença dos estrangeiros. “Franceses e holandeses contribuíram para o futebol da Inglaterra. Hoje, o brasileiro tem maior facilidade para jogar no país”, garante o ex-jogador.

Sylvinho, no entanto, afirma que o tradicional estilo do inglês nos gramados permanecerá por muitos anos – principalmente a vocação defensiva de seus times. “Ao chegar no Arsenal, aprendi a defender. Quando ingressei ao futebol espanhol, no Barcelona, me sentia mais completo”, explica.

Assim, o atual auxiliar técnico do Náutico revela estar surpreso com a rápida adaptação do meia Oscar, ex-Internacional, no Chelsea. “Poucos comentam a facilidade como que ele entrou em um time que nem totalmente ajustado está”, finalizou.

Confira o número de brasileiros na Premier League entre 2002 e 2013

Para toda regra, há uma exceção

Em fevereiro, o jornal britânico Daily Mail elaborou uma lista de dez nomes com os piores brasileiros que já disputaram a primeira divisão inglesa. Entre eles está o volante Kleberson, ex-Atlético Paranaense. Peça importante na conquista do Mundial de 2002, na Coreia e no Japão, o brasileiro foi apresentado ao lado do jovem – e até então promessa – Cristiano Ronaldo no Manchester United, em 2003. Em duas temporadas, ele fez 30 jogos e marcou dois gols, até ser vendido para o Besikitas, da Turquia.

O lateral-esquerdo André Santos também figura a lista. Antes mesmo de deixar o Arsenal para vestir a camisa do Grêmio, o jogador ficou marcado pela troca de camisa com o ex-ídolo do time de Londres, o holandês Robin Van Persie, em um intervalo no clássico contra o Manchester United, fato que irritou a torcida do seu clube.

Também são lembrados jogadores que foram contratados após atuações de destaque na seleção brasileira. Mirandinha é um deles. Branco (Middlesbrough), Roque Junior (Leeds) e Julio Baptista (Arsenal) também aparecem na lista.

Confira casos de sucesso: Juninho, Gilberto Silva e Edu

Uma posição, contudo, merece destaque. O tradicional camisa nove brasileiro,, centroavante, não sai da memória de parte dos torcedores ingleses. E não faltaram tentativas – todas resultadas em fracassos:  Jardel (Bolton), Ilan (West Ham), Afonso Alves (Middlesbrough) e Jô (Manchester City e Everton). Juntos, os quatro jogadores atuaram por seis temporadas na Inglaterra e marcaram 20 gols ao todo. Afonso Alves foi o artilheiro do “time das decepções”, com 10 gols em 47 jogos. Em sete partidas, Jardel não conseguiu balançar as redes inglesas em nenhuma ocasião na temporada 2003/2004.

Sylvinho, por sua vez, compreende o cenário e compara o ucraniano Andriy Shevchenko, maior ídolo da história do país do leste europeu, à situação vivida pelos brasileiros. “Eu vi o Shevchenko fazer muito sucesso no Milan. Quando chegou ao Chelsea, decepcionou”, finalizou. Falta, agora, quebrar essa premissa.

Foto: Sot_kat

Poesia e prosa: Pasolini, Barcelona e a “era dos dados”

Por José Maria de Miranda Neto

O escritor e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini conseguir simbolizar, em forma de arte, a linguagem do futebol praticado no início da década de 1970. Ao se basear primordialmente nas duas escolas que disputavam a hegemonia do esporte naquele tempo – Brasil e Itália -, o diretor instituiu uma teoria própria de análise do jogo, materializada na obra “Futebol de prosa e futebol de poesia”.

A prosa, representada pela seleção de seu país, Itália, privilegiava o sistema coletivo em detrimento da individualidade, adornada por esquemas geométricos – como as conhecidas triangulações -, passes calculados e uma composição defensiva segura.

A poesia em campo, por sua vez, vestia uma camisa amarela: a seleção brasileira de futebol. Para Pasolini, o ar mais poético da partida acontecia na execução de um drible desconcertante ou na realização de um gol esteticamente perfeito – atributos que não faltaram ao time tricampeão do mundo no México, em 1970. A capacidade de improvisar e a extrema liberdade tática também eram marcas daquele time verde e amarelo que fazia o futebol parecer uma arte.

Segundo sua crônica, os sul-americanos eram os guardiões da magia dos versos poéticos, ao passo que os europeus carregavam consigo a frieza necessária para conduzir o desenvolvimento de um parágrafo uniforme. Contudo, depois daquela épica final no México, as Copas do Mundo que se sucederam mostraram que não necessariamente a linguagem futebolística mais aprazível conseguiria obter os méritos suficientes para conquistar um número superior de troféus.

Europeus x Sul-Americanos: quem faturou mais Mundiais

Sem ter acesso às tecnologias presentes, hoje, Pasolini conseguiu diagnosticar características que identificavam traços marcantes de duas culturas futebolísticas bem discrepantes, manejando com rabiscos composições táticas complexas.

Pasolini morreu em 1975, um ano após a revolução laranja do carrossel holandês. Mesmo sem ter analisado a fundo as inovações conceituais trazidas pela equipe de Rinus Michels e Johan Cruyff, o sábio italiano ainda teve a oportunidade de acompanhar o embrião do modelo que seria consagrado 35 anos mais tarde no nordeste da Espanha.

A seleção holandesa de 1974, de fato, chegou a mesclar aspectos dos dois estilos traçados por Pasolini. Esse fenômeno, contudo, não durou mais do que alguns meses. A realização plena do hibridismo entre a prosa e a poesia, portanto, só viria a ser consagrada com a ascensão de Pep Guardiola ao comando do Barcelona, em meados de 2008.

O treinador catalão lançou mão de alguns conceitos que já faziam parte da influência holandesa na instituição Barcelona, tais como o esquema de jogo 4-3-3 e a obsessão pela posse de bola, e aprimorou detalhes táticos importantes, como a movimentação vertical dos atacantes de lado e a “onipresença pendular” do falso número 9, que transformou o jogador Lionel Messi, simultaneamente, em armador e centroavante goleador.

Abaixo, seguem os principais títulos e números da era Guardiola:

Quantidade           Competição                   Edição
      2 Torneio mundial de clubes                   2009
      2 Uefa Champions League     2008/2009 e 2010/2011
      2 Super Copa da Europa            2009 e 2011
      3 Campeonato Espanhol 2008/2009, 2009/2010 e 2010/2011
      2 Copa do Rei da Espanha    2008/2009 e 2011/2012
      3 Super Copa da Espanha       2009, 2010 e 2011
247 jogos disputados    179 vitórias, 47 empates e 21derrotas
                         Saldo de gols           638 gols marcados, 181 gols sofridos
                   Média de gols marcados                        2,58 por partida
                   Média de Gols Sofridos                        0,73 por partida
Número de jogos em que marcou gol   229
Número de jogos em que sofreu gol  130
Maior série de jogos com vitórias 11
Maior série de jogos invícto  28

Não resta dúvida de que o atual modelo Barcelona só atinge um alto grau de excelência em virtude do talento individual do argentino e de mais alguns atletas de exceção, como os espanhóis Xavi e Iniesta. Apesar de todo este arsenal de brilhantismo técnico, o fator diferencial desta equipe continua sendo o comprometimento irrestrito para com a filosofia do modelo implantado.

Nesse aspecto, destaca-se a doutrina do “tic taca” seguida à risca por todos os jogadores do clube, desde a base até o elenco profissional, e que preconiza três virtudes do clube: a posse de bola a partir de rápidos passes, a pressão incessante para recuperá-la ainda no campo de ataque, e o desborde, que nada mais é do que a constante troca de posições entre os jogadores do setor ofensivo.

Com a saída de Guardiola na temporada passada, o modelo Barcelona continuou intacto nas mãos do atual treinador, Tito Vilanova. Mesmo que o resultado dentro das quatro linhas nem sempre se reflita numa prova cabal de que temos uma hegemonia azul-grená no cenário moderno do futebol, é difícil negar que nos últimos 5 anos o clube se constituiu em um referencial de futebol a ser alcançado, em um espelho para as demais equipes do planeta.

Em razão de todos os métodos técnicos e táticos que transformaram esse clube em um padrão de qualidade do mundo da bola, é inevitável o sentimento de curiosidade dos amantes da modalidade em saber qual seria a apreciação do saudoso Pier Paolo Pasolini a respeito desta revolução futebolística contemporânea. Após um breve estudo de sua obra, taxar o modelo Barcelona como híbrido, pairando entre a prosa e a poesia, entre a organização e o espetáculo, seria algo bem racional.

E, se por ventura o gênio italiano criasse um terceiro gênero literário para descrever a simbiose entre a triangulação e o drible, entre o gol de placa e o tento bem planejado? Como ele disporia da grande gama de recursos digitais disponíveis hoje? Quantos dados ele não cruzaria e quantas avaliações à frente do nosso tempo ele não faria através disto?

Talvez, com a ajuda de tais meios, manipulando dados e números variados de desempenho, Pasolini pudesse até ajudar na controversa discussão de quem será mais poético para a história do futebol. Pelé ou Messi? Mas não, através de seus escritos não saberemos. Um dia, quem sabe, possamos descobrir de uma maneira mais prosaica ou até robotizada, porém jamais através da singular interpretação de Pasolini.

Foto: Karabattole e Thesportreview.

A volta do Castelão e o renascimento do futebol maranhense

Por Rafael Arrais

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Disputar uma partida no estádio que lhe pertence é um elemento nada desprezível no futebol brasileiro. No caso dos times do Maranhão, então, participar de um duelo no Estádio Castelão é sinônimo de vitória – sobretudo a nível nacional. O ano de 2012 mostrou aos torcedores maranhenses que o campo do Gigante do Outeiro da Cruz, como também é conhecido o Estádio Governador João Castelo, tem forte influência para campanhas vitoriosas das equipes locais. Depois de oito anos fechado, o Castelão foi o principal palco da conquista inédita do Série D – e de forma invicta – pelo Sampaio Corrêa, ratificando a fama de cenário perfeito dos êxitos das equipes locais, popularmente conhecida como ludovicenses.

Inaugurado em maio de 1982, o Castelão surgiu como alternativa ao acanhado Nhozinho Santos, arena municipal localizada na área central da capital São Luís. Com o crescente interesse de expansão do futebol ludovicense, o Castelão foi construído com um objetivo: reunir mais torcedores. Com capacidade para 75.000 pessoas, o novo estádio, além de alavancar públicos locais, tinha condições de receber grandes jogos, sobretudo da seleção brasileira. Por três décadas, o Gigante do Outeiro da Cruz foi palco de quatro jogos do selecionado canarinho, sempre com presença marcante de público, como o jogo contra a Iugoslávia, em 1998, quando o estádio recebeu cerca de 100.000 torcedores. Foi a estreia de Vanderlei Luxemburgo no comando da equipe. O duelo terminou empatado por 1 a 1.

Além de jogos importantes, clássicos locais e campanhas memoráveis das equipes maranhenses marcaram a história do local. Há, contudo, uma especial: 1997, quando o Sampaio Corrêa sagrou-se campeão invicto da Série C. Imbatível em seus domínios, o tricolor maranhense ainda venceu a Copa Norte em 1998 e alcançou até as semifinais da Copa Conmebol, quando foi eliminado para o Santos, em jogo que marcou o maior público da história do estádio: 105.000  torcedores estiveram presentes na derrota por 5 a 1 para a equipe paulista.

Apesar de nunca ter conquistado títulos de destaque no cenário nacional, o Moto Clube de São Luís sempre fez boas campanhas e era presença constante nas Séries B e C jogando no Estádio Castelão, além de brigar pelos títulos regionais com o Sampaio Corrêa. Mas a partir de 2004, o futebol maranhense entrou em um grande declínio, com suas equipes perdendo representatividade. Coincidentemente, essa decadência ocorreu concomitantemente em que o estádio começava a ser fechado.

Estrutura comprometida, descaso e recuperação

Em 2004, o então governador do Maranhão, José Reinado Tavares (PSB), fechou as portas do estádio. A razão, na época, era evidente: estrutura comprometida e arquibancadas corriam risco de desabamento. Apesar da ordem de fechamento, o local só foi receber obras necessárias para a utilização em 2007, quando Jackson Lago (PDT) assumiu o governo do Estado. Sem previsão de entrega, o Castelão passou ainda por um problema político, já que, a governadora Roseana Sarney – pós assumir o governo do estado – mandou, em 2009, paralisar a obra em função das suspeitas de desvio de dinheiro público.

Confira também o retrospecto do Sampaio Corrêa nas edições do Brasileiro

Resolvidas as pendências políticas, o estádio Castelão retomou suas obras e voltou a funcionar em outubro de 2012, como parte das comemorações pelos 400 anos da cidade de São Luís. Apesar do público reduzido – o local passou da capacidade de 75 para 40.000 pessoas – o novo estádio obteve melhorias e se enquadrou nas exigências de segurança e estrutura da Fifa. Cadeiras anti-vandalismo, catracas, recuperação das cabines de rádio e TV, 22 câmeras, adaptação total às pessoas com deficiência, além de nova iluminação e placar eletrônico foram instalados.

O presidente da Federação Maranhense de Futebol (FMF), Antônio Américo, ressaltou a possibilidade do Castelão ser uma sub-sede na Copa do mundo de 2014. “Hoje temos condições de receber qualquer jogo de futebol, inclusive da Seleção Brasileira. A Fifa tem um padrão de estádio, que exige para receber qualquer seleção, e com o Castelão nos credenciamos para ser uma sub-sede da Copa do Mundo. O futebol maranhense está crescendo e é importante que o público tenha uma praça esportiva moderna, confortável e segura”, destacou Américo.

Castelão pé quente

O Gigante do Outeiro da Cruz ficou conhecido em 2001 como estádio pé quente, principalmente depois que o Brasil derrotou a Venezuela pelas eliminatórias da Copa do Mundo, garantindo assim vaga para a Copa da Coréia do Sul e o Japão, onde se sagraria pentacampeão do Mundo. Depois do hiato de quase uma década, o retorno triunfal. O Sampaio Corrêa, único representante maranhense no Campeonato Brasileiro da Série D, fez boa campanha na primeira fase do torneio e terminou em primeiro lugar no seu grupo.

O primeiro jogo das oitavas de final da competição foi realizado no Castelão e contou com o estádio lotado, com as 40.000 vagas preenchidas. Com a força da torcida, o tricolor maranhense foi avançando na competição. O título invicto foi destaque na mídia nacional, sobretudo pela festa que os fanáticos faziam nas arquibancadas.

Com a campanha vitoriosa e o Castelão como aliado, o time maranhense obteve a quinta maior média de público entre os times de todas as divisões do futebol brasileiro, levando 19.884 torcedores por jogo na competição. Mesmo podendo contar com o campo do Castelão apenas metade do torneio, a equipe obteve média melhor do que 17 times da primeira divisão.

Vida nova para o futebol maranhense

O secretário de Esporte e Lazer do Maranhão, Joaquim Haickel, destacou que a recuperação do Castelão pode produzir frutos para o futebol maranhense. “Sem o Castelão nós não poderíamos tentar só erguer o futebol maranhense. Com o estádio totalmente recuperado, nós poderemos congregar as forças que fazem o futebol no estado: a torcida comparecendo, os clubes com boa administração, a Federação Maranhense com transparência e ação efetiva do Governo do Estado, agindo para ajudar o futebol”, ressaltou o secretário.

Com a volta do Estádio Governador João Castelo, o título invicto da Série D pelo Sampaio Correa e a participação de mais uma equipe em competições nacionais – o Maranhão Atlético Clube irá disputar a Série D em 2013 – o futebol maranhense tem tudo para voltar a figurar nas principais competições do futebol brasileiro. Além de arrecadar mais, os clubes podem se prevalecer do fator campo, do apoio da torcida e da mística que o Gigante do Outeiro da Cruz possui, para ajudar as equipes locais. Quem agradece é o torcedor ludovicense, que espera poder acompanhar ainda muitos títulos com festa da torcida e estádio lotado no reformulado Castelão.

Foto: Encantos do Maranhão.

 

O basquete precisa dos clubes de futebol?

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Palmeiras e Flamengo são os clubes de “camisa” que disputam a temporada atual do NBB. (Foto: LNB/Divulgação)

Por Milena Antunes

Há décadas, quadras brasileiras de basquete são representadas por camisas tradicionais das principais equipes de futebol do país. Muitas, ao longo dos anos, abandonaram a modalidade por uma série de razões. Agora, esse fenômeno começa a ressurgir no esporte – que já foi o segundo mais praticado no país. Esse retorno, no entanto, abriu espaço para discussões. No grupo dos que defendem as agremiações de futebol, a justificativa é basicamente financeira: um time popular atrai mais torcedores, mídia e, consequentemente, patrocinadores, lucros e melhores contratações. É um ciclo. Seria um caminho mais curto para desenvolver o basquete no Brasil.

O lado que se opõe a essa ideia defende as cidades como celeiros de grandes equipes, a exemplo de Franca, onde o esporte da bola laranja é a principal referência. O discurso é de que os clubes de futebol – raras as exceções – não fazem investimentos em longo prazo, enquanto parte do público – em determinados momentos – pode ser representado por torcidas organizadas que afastam espectadores já existentes, protagonizando assim ações violentas, que não condizem com a recente história do esporte.

Alberto Bial, técnico do Basquete Cearense, é um dos principais formadores de equipes do Brasil. Irmão do jornalista Pedro Bial, Alberto Já fez um trabalho consistente em Joinville, e está à frente do projeto que trouxe o primeiro time do nordeste para o NBB. Ele, apesar de defender a paixão de cidades pelo basquete, acredita que os clubes de futebol podem fortalecer o esporte. “As grandes equipes do mundo são Barcelona e Real Madrid. No futebol – e no basquete – eles são grandes. A volta de times como esses  pode tornar o nosso campeonato valioso”, avalia.

Tradição da cidade x tradição da camisa

Os principais campeonatos de basquete no Brasil começaram na década de 1960. Em 1965, foi organizado o primeiro torneio nacional, o Troféu Brasil, que, 25 anos depois, foi substituído pelo Campeonato Brasileiro. Em 2009, teve início o Novo Basquete Brasil (NBB), primeiro campeonato liderado por uma liga independente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).

Desde aquela época, vários clubes de futebol tiveram foram representados no basquete. Corinthians, Botafogo, Palmeiras, Vasco, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Vila Nova (GO) e Sport Recife são alguns dos times que participaram da competição. O Corinthians passou por uma época de ouro nos anos 60. No elenco, contava com boa parte dos atletas da seleção brasileira, e conquistou três vezes o Troféu Brasil. No Campeonato Brasileiro, em outra geração, eles ficaram com o título em 1996. Vasco e Flamengo têm duas conquistas nacionais cada, já nos anos 2000. Vila Nova, Botafogo e Palmeiras também já conquistaram o título entre os anos de 1960 e 1980.

A tradição, no entanto, é bloqueada por apenas um dado. Todos os resultados somados por essas equipes não superam as conquistas do time de Franca, considerado o mais tradicional do país, com dez títulos brasileiros. A extinta equipe do EC Sírio se mantém na história como a segunda maior campeã nacional: foram sete conquistas. Atrás deles vem a também extinta equipe do CA Monte Líbano, com cinco triunfos, conforme mostra a arte a seguir:

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No quesito tradição, é inquestionável a participação dos clubes tradicionais na história do basquete. Entre os atletas, o jogador Oscar, considerado por muitos o melhor atleta brasileiro do basquete de todos os tempos, além de ter iniciado a carreira no Palmeiras, foi campeão com o Corinthians e encerrou a carreira no Flamengo. Um dos grandes problemas desses clubes, porém, é a efemeridade dos investimentos. O carro-chefe das grandes equipes é o futebol. Ao primeiro sinal de crise, os esportes amadores são os primeiros na lista de corte. Foi o que aconteceu em outra modalidade. Em 2011, o Santos montou um time de estrelas no futsal, mas extinguiu a equipe em apenas uma temporada para destinar o dinheiro à evolução do seu departamento de futebol. Com o basquete não foi diferente. Vários clubes que deixaram o esporte em algum momento priorizaram a modalidade de interesse número um. Apesar de apoiar o retorno das equipes de “camisa” no basquete, o novo presidente da Liga Nacional de Basquete (LNB), Cássio Roque, que assumiu o cargo em 2012, pede seriedade.

“Queremos projetos longos e que tenham sequência. Não tenho interesse em clubes que entrem apenas para disputar uma temporada e depois saiam pela porta do fundos. Quanto mais os clubes de camisa entrarem no NBB, mais visibilidade e investimento nós teremos”, disse em sua primeira entrevista como presidente da entidade. Ele lembrou também de outras equipes tradicionais, que poderiam voltar ao cenário nacional.

“Temos muitas pessoas com boas intenções em montar novos times de basquete no país. Quem sabe esses profissionais não tragam de volta outros clubes tradicionais, como o Vasco, por exemplo, que teve muito sucesso no fim dos anos 90″, acrescentou. Apesar da torcida pelo retorno de clubes tradicionais, que teoricamente trariam visibilidade para o basquete, há quem acredite que o melhor meio de desenvolver o esporte é o investimento em cidades que podem abraçar a equipe. Franca é exemplo de cidade que tem o basquete como referência sem precisar da popularidade de um clube de futebol.

Rodrigo Cicone é formado em educação física e marketing esportivo, e desenvolveu um estudo sobre as diferenças entre a evolução do basquete e do voleibol no Brasil, pela Universidade de Campinas. Em sua tese, ele defende a ideia de crescimento sustentável. “Sempre que um clube de futebol investe em outra modalidade devemos ter o pé atrás. O Flamengo mantém o basquete há muitos anos, mas tem um histórico enorme de dívidas trabalhistas. O Palmeiras tem um bom trabalho de base, mas é igual ao de outros clubes, como Pinheiros e Paulistano. Um time terá público se estiver bem localizado. Cidades no interior, ou com poucas opções de lazer e esporte em que as pessoas possam se espelhar geralmente conseguem um sucesso maior. Veja o exemplo de Franca. Mogi das Cruzes também. Mesmo quando era Corinthians, a maioria esmagadora da torcida era de cidadão da cidade. Nesse retorno, eles surpreenderam. Já lotaram o ginásio na final da Supercopa, e surpreenderam com a melhor média de todas as equipes do NBB, mesmo com nove anos sem atividades. É isso que faz a diferença”, opinou.

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Franca é exemplo de cidade que tem o basquete como referência sem precisar da popularidade de um clube de futebol. (Foto: LNB/Divulgação)

O retorno do público

Na teoria, ter um time de renome do futebol no basquete poderia transferir a popularidade da camisa para o esporte, funcionando como um atalho para atrair de forma mais rápida o público, e, consequentemente, angariando investimentos. Na prática, a realidade é totalmente diferente.

Nas últimas edições em que o Campeonato Brasileiro Masculino teve como organizadores a CBB, os clubes já sofriam com a falta de investimento. Alguns, incluindo o COC/Ribeirão Preto, fecharam as portas, e a situação impulsionou a criação de uma liga independente, que atendesse as necessidades econômicas dos times. A primeira tentativa foi a Nossa Liga de Basquete, liderada pelo ex-jogador Oscar. Mas apenas com a criação da LNB e o NBB o formato teve sucesso.

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Cadeiras vazias denunciam público abaixo do esperado nos jogos do Flamengo, no Rio de Janeiro. (Foto: LNB/Divulgação)

Desde 2009, a LNB faz um trabalho para reestruturar o basquete, e voltar a atrair a atenção. Em parceria com a Rede Globo e o Sportv, gradativamente, os resultados têm aparecido. A Liga não divulga os números oficiais, mas admite que houve aumento no público que acompanha o NBB. Desde a terceira edição, a organização divulga um ranking, com a média de espectadores de cada clube.

No ciclo 3, Franca e Brasília lideraram as estatísticas, com cerca de 2 mil torcedores em cada jogo, apenas na fase de classificação. Durante os playoffs os números aumentaram consideravelmente.

Na edição do ano passado, o time de Brasília obteve novamente as melhores médias, seguido pelo São José dos Campos, sensação da temporada 2011/12, e novamente por Franca, mesmo com a má fase da tradicional equipe do interior.

O Flamengo, único time de futebol que integra o NBB desde o início, teve boas médias no primeiro ano, como consequência da campanha, que levou o rubro-negro ao título da temporada. A média total, porém, não chegou a ultrapassar os números de outras equipes não vinculadas ao futebol.

Na temporada passada, os cariocas chegaram aos playoffs e eram apontados como um dos favoritos ao título. Mesmo assim, o Flamengo teve média inferior a mil torcedores durante a temporada.

Para o ciclo 2012/13, o clube abriu os cofres, e contratou vários nomes de peso, como o ala Marquinhos, e o pivô Olivinha, ambos ex-atletas do Pinheiros. Com uma sequência recorde de 20 jogos sem perder, a equipe atraiu a torcida. A média subiu para cerca de 1.500 torcedores por jogo, mas não foi suficiente para bater o público de outros times no primeiro turno: Mogi Basquete e Franca, dois pólos tradicionais do basquete, ficaram com as primeiras posições, respectivamente. O Basquete Cearense, que experimenta a primeira temporada no NBB, ficou em terceiro. O Flamengo, mesmo com toda a euforia pela sequência de vitórias do time, ficou apenas em quarto lugar no ranking.

Confira também: média do público por equipe

Para aumentar o público, a diretoria do Flamengo cogitou mudar de ginásio. Atualmente, eles jogam no Tijuca Tênis Clube, espaço com capacidade para 2 mil torcedores. Mas ao que parece, por enquanto, o projeto não seguirá adiante. Na contramão da maioria das equipes, que registrou aumento de público no segundo turno da competição, o Flamengo sofreu uma baixa considerável, segundo a própria direção do clube. Nos últimos quatro jogos com mando de quadra, o clube aumentou o valor dos ingressos, e o público diminuiu em quase 500 pessoas por partida – agora são 1018, o que leva os cariocas para o sexto lugar no ranking. Após a derrota para Franca, a primeira do time no dia 16 de fevereiro, o rubro-negro registrou uma das piores médias da temporada, com menos de mil pessoas no ginásio.

O Palmeiras, no quesito público, tem ainda mais motivos para se preocupar. A diretoria esperava um bom número de torcedores por causa do apelo que tem o nome Palmeiras, mas fechou o primeiro turno com média de 660 pessoas por jogo. Entre os quatro estreantes da competição – os outros são Mogi Basquete, Basquete Cearense e Suzano – o alviverde tem a segunda pior média, e apesar de registrar um pequeno aumento no segundo turno, esse dado é um tanto ilusório. O número subiu por causa do público de apenas um jogo. Contra Mogi das Cruzes, primeiro confronto com torcida rival presente (não entra para a contagem), o Palmeiras registrou a melhor média da temporada, com cerca de 800 torcedores, além dos 62 presentes da torcida rival.

A questão da violência

São poucas as ocorrências de violência entre torcidas de basquete. Nas quatro primeiras edições do NBB, não houve nenhum registro de confusão entre públicos adversários. A situação, contudo, mudou neste ano – e com um clube protagonista de problemas fora de campo: o Palmeiras.

No último sábado, a equipe jogou no Palestra Itália contra o Mogi Basquete. Um grupo de 62 torcedores foi ao ginásio rival, e sofreu com as ameaças dos adversários. Com o jogo em andamento, alguns torcedores uniformizados da Mancha Verde se aglomeraram próximo ao local reservado para os visitantes, para tentar invadir. Eles alegaram que os mogianos teriam cantando um hino do Corinthians, mas nenhuma testemunha confirma. A polícia militar teve de intervir duas vezes para evitar uma confusão maior. Além da torcida, os palmeirenses teriam agredido também dois atletas de Mogi das Cruzes.

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Esse não foi o primeiro caso de confusão criada pela torcida do Palmeiras neste NBB e na temporada atual do basquete. No primeiro turno, eles já tentaram numa emboscada contra a torcida organizada do Flamengo, impedida pela polícia militar. Cerca de 20 pessoas foram presas.

Essa é a situação que mais preocupa no retorno dos times de futebol ao esporte. Segundo pesquisa IBOPE, o público do basquete é formado basicamente por famílias, e tem uma boa fatia de seu público formado por crianças e adolescentes até 15 anos, além de mulheres. Quem acompanha, afirma que torcer, atualmente, é tranquilo.

“Não importa a cidade aonde vamos, sempre que o juiz apita o final dá para conversar com a torcida adversária, brincar. É tudo por um basquete saudável”, diz o torcedor Wagner Lorijola, de Mogi das Cruzes, e que esteve na confusão no último sábado.

O retorno das torcidas organizadas aos ginásios deixa o torcedor apreensível, e pode afastar o público que hoje acompanha o esporte.

“Quem estava com criança teve que sair correndo com ela no colo. Isso não é basquete. Eu acompanho sempre, e há muitos anos. Se tiver organizada de futebol em algum lugar, eu não vou mais. É perigoso”, revelou uma torcedora que não quis se identificar.

De fato, foram muitos os confrontos entre torcidas que modificaram entre os anos de 1990 e 200 o público que acompanhava o basquete, principalmente no Rio de Janeiro (veja alguns casos). A rivalidade entre Vasco, Flamengo e Botafogo já teve registros de brigas generalizadas, e até morte de torcedores. A queda nos registros de violência, curiosamente, se deu conforme os times de clubes de futebol deixaram o basquete. No campeonato nacional, o Vasco, que travou os confrontos mais violentos do basquete brasileiro, parou de disputar em 2003.

Em 2006, aconteceu a última competição que reuniu mais de uma equipe de tradição no futebol. Na época, São Paulo, Flamengo e Sport Recife eram os únicos que se mantinham na competição, mas a rivalidade se mantinha nos torneios estaduais.

Desde 2008, não há encontros entre times de “camisa” no basquete. Agora Palmeiras e Flamengo dividem a tabela pela primeira vez em cinco anos, mas a rivalidade – pelo menos de estados – ainda não é acirrada. Para o próximo semestre, o Fluminense já tem um projeto em andamento, e deve competir no Campeonato Carioca e reeditar nas quadras a rivalidade do Fla-Flu. É mais um motivo para levar mais e mais pessoas às quadras. Mas sem violência.

Amazonas sem divisão

Por Rafael Campos e Carina Bordalo

Arena Amazônia em reforma para a Copa do Mundo

O dia 31 de maio de 2009 está marcado na história dos amazonenses. A data, que credenciou Manaus a uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi celebrada com muita festa entre a população local. O mesmo, contudo, não pode ser dito aos vizinhos paraensenses, concorrente direto na região norte do país. O motivo da revolta é controverso: segundo eles, Amazonas não tem tradição alguma no futebol. Nenhum de seus clubes jamais teve relevância nacional e, há muito tempo, não figura nas grandes competições do Brasil – só o São Raimundo esteve na Série B até 2006.

O Pará, por sua vez, teve o Paysandu como referência na primeira divisão do futebol brasileiro em duas oportunidades: 2003 e 2005. O Papão, como também é conhecido, também conquistou a Copa dos Campeões de 2002, credenciando-se assim a uma vaga na Copa Libertadores da América do ano seguinte – quando obteve uma vitória histórica sobre o Boca Juniors em La Bombonera. A última vez que um clube amazonense disputou a Série A do Brasileiro foi em 1986 (Nacional-AM). De lá pra cá, nenhum time repetiu a façanha. Ademais, as equipes colecionam fracassos na Série D e na Copa do Brasil.

“Nada nos impede de ter um time na Série A do Campeonato Brasileiro em 2014″, disse Eduardo Braga, governador do estado na época da confirmação de Manaus como sede da Copa. Em 2013, os amazonenses continuarão na série D. Episódios recentes sugerem que o malogro do futebol do Amazonas passa por, pelo menos, dois fatores: falta de estrutura física, uma vez que a capital não tem nenhum estádio público funcionando atualmente.

Manaus, uma capital sem palco para o espetáculo do futebol
A Arena da Amazônia é um dos estádios da Copa que mais preocupam a FIFA: 52% total das obras foram concluídas em dois anos e meio. Esse mesmo período é o tempo que os times do Amazonas ficaram sem estádio na capital (Manaus) para disputar seus jogos, sejam eles do Campeonato Amazonense ou dos nacionais – Copa do Brasil e Série D do Brasileirão.

Atualmente o estadual tem a maioria de seus jogos realizados em cidades do interior. Poucas partidas são disputadas no Estádio Pedro Simonsen, pertencente a uma instituição ligada à indústria. A razão é evidente: capacidade de apenas 5.000 torcedores. Em 2010, o América-AM, que disputava a Série D, teve de mudar um jogo contra o Joinville-SC para a cidade de Santarém, interior do Pará: uma das exigências da competição era ter um estádio com capacidade mínima para 10.000 pessoas em algumas fases do torneio.

“Não temos um estádio para ter o torcedor ao nosso lado. Talvez se tivéssemos jogado em casa teríamos conseguido resultados melhores, até mesmo o título”, disse a então presidente do time amazonense, Bruna Parente. O América chegou a ser vice-campeão da Série D naquele ano, mandando uma das partidas da final no interior do Pará. Mas, no fim das contas, o título nada valeria, porque o time foi punido por escalação irregular de um jogador e foi eliminado. Entenderemos esse episódio mais abaixo nesta reportagem.

Uma tentativa de resolver o problema é a reforma do Estádio Ismael Benigno, a Colina, que pertence ao São Raimundo. Localizado na zona oeste de Manaus, o campo conta apenas com sua parte coberta das arquibancadas, com capacidade para cerca de 1.000 torcedores – o restante foi interditado por falta de estrutura. Com a escolha para sediar jogos da Copa, o governo do estado disse que reformaria a Colina, transformando-a em um Centro de Treinamento para as seleções que estarão em Manaus. A obra seria iniciada em 2009 e teria duração de oito meses. O projeto, até agora, não saiu do papel.

Em 2013, após muitas promessas, o governo anunciou que a reforma seria iniciada depois da liberação de R$ 21 milhões do governo federal. “A Colina é o primeiro CT da Copa de 2014, e as obras iniciarão neste mês (fevereiro). Estamos em busca de mais um espaço para construir um terceiro campo oficial. A princípio, estamos em contato com o Exército para tentar conseguir uma área no São Jorge, Zona Oeste. Se não conseguirmos, vamos tentar a Zona Norte”, garantiu o governador Omar Aziz, no fim de janeiro. Mais uma vez: a reforma ainda não começou.

Amadorismo que custou vaga na Série D e prejudica as categorias de base
Dois episódios recentes ajudam a ilustrar os problemas dos dirigentes amazonenses na gestão de seus clubes. A perda do acesso à Série C pelo América-AM, em 2010, e o abandono de jogadores da base do Nacional-AM em um aeroporto de São Paulo, após a eliminação da Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano.

Em 2010, o América-AM disputou a Série D do Brasileiro, após se credenciar conquistando o estadual de 2009. Com poucos investimentos, o clube conseguiu montar um bom elenco – para os padrões do futebol do norte. Além disso, a equipe teve que mandar suas partidas fora do estado a partir da segunda fase da competição porque o Amazonas não tinha um estádio que atendesse as exigências da CBF, como citado acima. Apesar das dificuldades, o “Mequinha” fez ótima campanha chegando a final e se sagrando vice-campeão, ao ser derrotado pelo Guarani de Sobral, do Ceará, na final. Com o segundo lugar, os amazonenses eram só alegria, já que garantiam com isso uma vaga na Série C do ano seguinte. Porém, esse era o começo de mais uma frustração.

Pouco depois, o América perdeu o acesso à terceira divisão nacional, assim como o posto de vice-campeão da Série D. O Joinville, de Santa Catarina, que havia sido derrotado pelos amazonenses nas quartas de final, denunciou o rival por ter escalado um jogador de maneira irregular. A CBF confirmou que um atleta do América havia jogado contra o Madureira, na semifinal, mesmo suspenso por ter recebido o terceiro cartão amarelo na partida anterior.

Após a eliminação do América, dirigentes do clube e a Federação Amazonense de Futebol (FAF) entraram em conflito. “A FAF não nos avisou na época que o atleta estava suspenso por ter recebido o terceiro amarelo”, disse a então presidente do América-AM, Bruna Parente. Um dos diretores da Federação, Ivan Guimarães, rebateu a mandatária ao afirmar que esse tipo de preocupação deve ser da diretoria do time. Nesse embate quem saiu prejudicado foi o torcedor.

Três anos depois, o futebol do Amazonas voltou a demostrar certa falta de profissionalismo. O Nacional-AM foi o único clube amazonense a participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior. A campanha não foi das melhores: duas derrotas e uma vitória que fizeram o treinador Darlan Barroso anunciar sua saída. “Não temos apoio nenhum do próprio Nacional-AM. Gastei do meu próprio bolso para trazer os garotos”, afirmou Barroso.

O triunfo sobre o Paulista de Jundiaí, por 3 a 1, havia sido um consolo para os garotos da equipe, mas eles não sabiam que passariam por um drama. Dois dias após o último jogo na Copinha, os atletas deveriam retornar à Manaus, mas sem dinheiro para as passagens um grupo de cinco jogadores teve que ‘morar’ no Aeroporto de Guarulhos por dois dias, sem comida e sem conforto. A revolta foi manifestada no Facebook. “Olha nossa situação! Estamos jogados aqui há mais de 48h. Sem noticias de nada”, escreveu o goleiro Diego Ferreira na rede social. O colega Giovanny Gama também ficou revoltado. “Só nós sabemos o que estamos passando. Fome. Cansado até demais. Saudades da família.”.

Amazonas tenta evitar “elefante branco”

O investimento na Arena Amazônia é de cerca de R$ 550 milhões. A preocupação, contudo, é repetir os mesmos problemas apresentados após a disputa da última edição da Copa do Mundo, em 2010, na África do Sul: estádios sem a prática desportiva.

O Campeonato Estadual do Amazonas tem duração apenas de seis meses. No resto do ano, os times tem a Série D do Brasileiro, porém, o desempenho das equipes locais tem sido fraco, como mostrado acima.

Mesmo com todos os fatores que pesam contra, as autoridades amazonenses responsáveis pela organização da Copa garantem medidas para evitar que a Arena da Amazônia se torne um “elefante branco”. O coordenador da Unidade Gestora do Projeto Copa no Amazonas (UGP Copa), Miguel Capobiango, afirma que a utilização da Arena da Amazônia não se restringe apenas ao futebol.

“Nós estamos construindo um centro de convenções ao lado da Arena da Amazônia, justamente para que, a medida que eventos sejam realizados lá, a Arena possa ser utilizada nesses eventos também”, afirmou o coordenador, antes de confirmar que um dos setores do estádio vai funcionar como um shopping.

“Uma parte do estádio, assim como aconteceu na África do Sul, vai ser destinada ao uso comercial. Com isso nós esperamos que ele possa funcionar o ano todo, mesmo sem competições de futebol”, acrescentou. Além dessa medida, o coordenador diz que há possibilidade da administração da Arena da Amazônia fechar contratos com empresas que promovam grandes shows no estádio.

“Vamos fazer uma licitação. Nada impede que grandes shows sejam realizados na Arena da Amazônia. O importante é que esse estádio e a Copa são muito importantes para o povo de Manaus, que tem uma carência muito grande no futebol. Além disso, o estádio foi projetado para parecer uma bacia de farinha (recipiente regional para armazenar farinha de mandioca), algo bem regional mesmo, que pode atrair turistas do mundo todo, tornando-se um ponto turístico da cidade”, emendou o coordenador da UGP Copa no Amazonas.

Foto: Copagov.

Pirataria, o “câncer” do mercado esportivo brasileiro

Por Zuba Ortiz e Guilherme Dorini

Recentemente, o investimento dos clubes em ações de marketing deixou de ser uma tendência ao se tornar uma obrigação. As principais equipes do mundo têm nesse departamento uma forma de potencializar suas receitas e facilitar suas administrações.

Com a profissionalização do esporte no Brasil, o marketing também cresceu e ajudou equipes a encontrarem novas formas de aumentar suas receitas, fugindo das tradicionais vendas – sejam elas de ingressos ou de jogadores. As placas de publicidade e venda de pacotes diferenciados para sócios-torcedores são apenas algumas das estratégias que mudaram as estruturas dos clubes. Outra ação importante, já explorada por alguns clubes, é o licenciamento de produtos.

A tática promove vantagens, como a transferência dos valores da marca, menor investimento na criação, diversificação do portfólio, entrada em novos segmentos, faturamento adicional e redução do tempo para atingir o consumidor final. Com a aproximação dos dois principais eventos esportivos do planeta – a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos -, o mercado varejista já começa a se movimentar.

Em março, os primeiros produtos licenciados chegam ao mercado brasileiro, a maioria relacionado à Copa das Confederações e depois à Copa do Mundo. O desafio, agora, é se preparar para a produção maciça de materiais piratas.

Em todas as edições de Mundial, a FIFA firma contrato com uma empresa responsável por licenciar todos os produtos da competição. No Brasil, a companhia escolhida foi a Globo Marcas – que já fechou contrato com 34 marcas e deve licenciar mais de 1500 produtos.

Para a FIFA, é importante combater a pirataria não apenas pelos seus parceiros nos eventos, mas tambémem função dos 10% que arrecada a cada produto licenciado que é vendido. E para fazer valer essa proteção contra a pirataria, a entidade máxima do futebol se apoia na Lei Geral da Copa, que prevê multa e prisão para quem reproduzir, imitar ou falsificar quaisquer símbolos oficiais da Fifa.

De acordo com números divulgados pela consultoria Global Sport Networks, o setor arrecada anualmente entre oito a dez milhões de reais somente no Brasil. Para o diretor da Associação Brasileira dos Lojistas de Equipamentos e Materiais Esportivos (ABRALEME), Rene Djkeim, a realização dos dois eventos pode provocar um aumento de até 15% na venda dos destes produtos. “Na realidade, o mercado esportivo já cresce cerca de 3 a 4% anualmente. No período da Copa do Mundo, esse número pode chegar em até 15%”, afirmou Djkeim.

Se por um lado, a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada inflaciona o mercado varejista de artigos esportivos, por outro, traz à tona outro problema: a pirataria. A pirataria é um problema presente na cultura brasileira. O alto preço dos produtos licenciados e facilidade de acesso aos produtos falsificados são as maiores incentivadores para o consumo de produtos piratas.

Segundo relatório publicado pelo Ministério da Justiça, de 2004 até julho de 2011, foram apreendidos mais de sete bilhões de materiais ilegais. Desse valor, cerca de 10% são de artigos esportivos. Para o diretor das lojas Esporte Clube e Cidade do Esporte, Fábio Anauate, é o alto preço dos produtos originais que acaba incentivando o consumo de produtos piratas. “Se hoje, uma camisa pirata custa no máximo R$ 50, variando entre R$ 35, R$ 40, para R$190, não é só querer comprar, o cara precisa poder. É pouca gente que pode pagar isso, aí fica uma situação difícil. Os culpados são as marcas que fabricam as camisas, porque você acha que uma camisa precisa custar o que ela custa pra mim? Me custa R$ 90, R$ 95, não tem cabimento! Fabricar uma camiseta não custa mais do que R$ 20!”, desabafou.

Para tentar reverter este cenário, os clubes de futebol criam alternativas para amenizar o problema. O Corinthians, por exemplo, inaugurou em 2008 a sua própria rede de lojas, a “Poderoso Timão”, que atualmente tem mais de 120 franquias em todo o Brasil.

Onde estão as lojas oficiais do Corinthians, a ‘Poderoso Timão’?

Além de materiais esportivos oficiais da Nike, as lojas vendem produtos a preços populares produzidos por empresas como a Poá Têxtil, que em 2008 confeccionou a camisa “Eu Nunca Vou Te Abandonar”. Com o valor de R$ 39,90, foram vendidas mais de 100 mil unidades, comprovando o sucesso da iniciativa.

De acordo com o diretor de marketing do Corinthians, Luis Paulo Rosenberg, a produção de linhas populares é uma ótima alternativa para aumentar o faturamento dos clubes. “Hoje nós conseguimos ter uma linha de quase 80 camisetas alternativas, vendendo a um preço acessível. Você tem que seguir o mercado, precisa ter um custo de produção mais barato somado a um produto de qualidade”.

Crescimento da ‘Poderoso Timão’

Ainda segundo Rosenberg, as ações para diminuir o consumo de produtos pirata entre os torcedores do Corinthians vêm surtindo efeito. “Vai ao estádio do Corinthians e vê quantas camisas pirata você encontra. Não chega a 20%! Isso aconteceu em um curto espaço de tempo, o que mostra que essa foi uma sacada muito legal” finalizou o diretor.