Poesia e prosa: Pasolini, Barcelona e a “era dos dados”

Por José Maria de Miranda Neto

O escritor e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini conseguir simbolizar, em forma de arte, a linguagem do futebol praticado no início da década de 1970. Ao se basear primordialmente nas duas escolas que disputavam a hegemonia do esporte naquele tempo – Brasil e Itália -, o diretor instituiu uma teoria própria de análise do jogo, materializada na obra “Futebol de prosa e futebol de poesia”.

A prosa, representada pela seleção de seu país, Itália, privilegiava o sistema coletivo em detrimento da individualidade, adornada por esquemas geométricos – como as conhecidas triangulações -, passes calculados e uma composição defensiva segura.

A poesia em campo, por sua vez, vestia uma camisa amarela: a seleção brasileira de futebol. Para Pasolini, o ar mais poético da partida acontecia na execução de um drible desconcertante ou na realização de um gol esteticamente perfeito – atributos que não faltaram ao time tricampeão do mundo no México, em 1970. A capacidade de improvisar e a extrema liberdade tática também eram marcas daquele time verde e amarelo que fazia o futebol parecer uma arte.

Segundo sua crônica, os sul-americanos eram os guardiões da magia dos versos poéticos, ao passo que os europeus carregavam consigo a frieza necessária para conduzir o desenvolvimento de um parágrafo uniforme. Contudo, depois daquela épica final no México, as Copas do Mundo que se sucederam mostraram que não necessariamente a linguagem futebolística mais aprazível conseguiria obter os méritos suficientes para conquistar um número superior de troféus.

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Sem ter acesso às tecnologias presentes, hoje, Pasolini conseguiu diagnosticar características que identificavam traços marcantes de duas culturas futebolísticas bem discrepantes, manejando com rabiscos composições táticas complexas.

Pasolini morreu em 1975, um ano após a revolução laranja do carrossel holandês. Mesmo sem ter analisado a fundo as inovações conceituais trazidas pela equipe de Rinus Michels e Johan Cruyff, o sábio italiano ainda teve a oportunidade de acompanhar o embrião do modelo que seria consagrado 35 anos mais tarde no nordeste da Espanha.

A seleção holandesa de 1974, de fato, chegou a mesclar aspectos dos dois estilos traçados por Pasolini. Esse fenômeno, contudo, não durou mais do que alguns meses. A realização plena do hibridismo entre a prosa e a poesia, portanto, só viria a ser consagrada com a ascensão de Pep Guardiola ao comando do Barcelona, em meados de 2008.

O treinador catalão lançou mão de alguns conceitos que já faziam parte da influência holandesa na instituição Barcelona, tais como o esquema de jogo 4-3-3 e a obsessão pela posse de bola, e aprimorou detalhes táticos importantes, como a movimentação vertical dos atacantes de lado e a “onipresença pendular” do falso número 9, que transformou o jogador Lionel Messi, simultaneamente, em armador e centroavante goleador.

Abaixo, seguem os principais títulos e números da era Guardiola:

Quantidade           Competição                   Edição
      2 Torneio mundial de clubes                   2009
      2 Uefa Champions League     2008/2009 e 2010/2011
      2 Super Copa da Europa            2009 e 2011
      3 Campeonato Espanhol 2008/2009, 2009/2010 e 2010/2011
      2 Copa do Rei da Espanha    2008/2009 e 2011/2012
      3 Super Copa da Espanha       2009, 2010 e 2011
247 jogos disputados    179 vitórias, 47 empates e 21derrotas
                         Saldo de gols           638 gols marcados, 181 gols sofridos
                   Média de gols marcados                        2,58 por partida
                   Média de Gols Sofridos                        0,73 por partida
Número de jogos em que marcou gol   229
Número de jogos em que sofreu gol  130
Maior série de jogos com vitórias 11
Maior série de jogos invícto  28

Não resta dúvida de que o atual modelo Barcelona só atinge um alto grau de excelência em virtude do talento individual do argentino e de mais alguns atletas de exceção, como os espanhóis Xavi e Iniesta. Apesar de todo este arsenal de brilhantismo técnico, o fator diferencial desta equipe continua sendo o comprometimento irrestrito para com a filosofia do modelo implantado.

Nesse aspecto, destaca-se a doutrina do “tic taca” seguida à risca por todos os jogadores do clube, desde a base até o elenco profissional, e que preconiza três virtudes do clube: a posse de bola a partir de rápidos passes, a pressão incessante para recuperá-la ainda no campo de ataque, e o desborde, que nada mais é do que a constante troca de posições entre os jogadores do setor ofensivo.

Com a saída de Guardiola na temporada passada, o modelo Barcelona continuou intacto nas mãos do atual treinador, Tito Vilanova. Mesmo que o resultado dentro das quatro linhas nem sempre se reflita numa prova cabal de que temos uma hegemonia azul-grená no cenário moderno do futebol, é difícil negar que nos últimos 5 anos o clube se constituiu em um referencial de futebol a ser alcançado, em um espelho para as demais equipes do planeta.

Em razão de todos os métodos técnicos e táticos que transformaram esse clube em um padrão de qualidade do mundo da bola, é inevitável o sentimento de curiosidade dos amantes da modalidade em saber qual seria a apreciação do saudoso Pier Paolo Pasolini a respeito desta revolução futebolística contemporânea. Após um breve estudo de sua obra, taxar o modelo Barcelona como híbrido, pairando entre a prosa e a poesia, entre a organização e o espetáculo, seria algo bem racional.

E, se por ventura o gênio italiano criasse um terceiro gênero literário para descrever a simbiose entre a triangulação e o drible, entre o gol de placa e o tento bem planejado? Como ele disporia da grande gama de recursos digitais disponíveis hoje? Quantos dados ele não cruzaria e quantas avaliações à frente do nosso tempo ele não faria através disto?

Talvez, com a ajuda de tais meios, manipulando dados e números variados de desempenho, Pasolini pudesse até ajudar na controversa discussão de quem será mais poético para a história do futebol. Pelé ou Messi? Mas não, através de seus escritos não saberemos. Um dia, quem sabe, possamos descobrir de uma maneira mais prosaica ou até robotizada, porém jamais através da singular interpretação de Pasolini.

Foto: Karabattole e Thesportreview.

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