Futebol para inglês (não) ver

Por Erik Reis e Vitor Geron

O Campeonato Inglês de futebol, conhecido como Premier League, é reconhecidamente um dos mais importantes do mundo. Há alguns anos, essa fama ganhou ainda mais forma depois que jogadores da elite mundial do esporte – e de diversas nacionalidades – desembarcaram em solo inglês. Contudo, os atletas do país mais tradicional no esporte, o Brasil, quase sempre foram coadjuvantes nas competições.

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Mirandinha foi o brasileiro pioneiro na Premier League

Se na Itália há registros de jogadores nascidos no Brasil atuando pela Série A do Calcio (como é chamada a primeira divisão de futebol no país) desde a década de 20 e ,na Espanha, já na década de 50, os ingleses só começaram a contratar brasileiros na década de 80. Ou quase no fim dela, em 1987. O responsável por esse êxodo foi o atacante Mirandinha, ex-jogador do Palmeiras que marcou gols importantes com a seleção brasileira contra Inglaterra e Escócia. As boas atuações chamaram atenção do Newcastle, um dos times de maior prestígio do país.

“Na época o próprio governo inglês dava preferência para os jogadores do Reino Unido, evitando que os britânicos perdessem o emprego”, afirma Mirandinha. Um obstáculo encontrado pelo ex-atleta é relativo aos altos impostos no país. “Na Inglaterra, qualquer libra que vem do clube para o atleta é taxado um percentual muito alto. Isso tirou, por exemplo, a possibilidade de o Müller (na época jogador do São Paulo) jogar no Tottenham, depois que expliquei como funcionava pra ele”, explica o ex-jogador, ao citar a época em que o colega de profissão negociou com o clube europeu. Müller foi contratado pelo Torino, da Itália, em 1988.

Outro ingrediente nada desprezível se refere aos modelos de treinamentos adotados no país. Durante duas temporadas no futebol inglês, Mirandinha afirma ter encontrado dificuldades para se adaptar ao estilo de jogo das equipes locais. Com poucos coletivos e mais treinos físicos e com campo reduzido, os treinos eram puxados. “Era muita força física, mas sempre tinha trabalho com bola. Então tinha diferença na rotina de treinos, além da alimentação e a língua, que são muito diferentes do Brasil e de países próximos da própria Europa”, destaca o ex-jogador.

Sylvinho e Juninho abrem novas portas ao futebol brasileiro

Após se destacar no Corinthians no início da década de 90, o lateral-esquerdo Sylvinho fez sucesso na Espanha e foi o primeiro brasileiro a jogar no Arsenal, em 1999. Para o jogador, a liga inglesa não é mais difícil apenas para os brasileiros. “Em conversas que tive com outros jogadores ao longo da minha carreira, um deles o francês Henry, sempre discutimos como a Premier League é mais complicada de se jogar. Um dos fatores é que não se marcam muitas faltas. Os contatos que são considerados infrações em outros países, principalmente no Brasil, na Inglaterra não são. Os times lá (na Premier League) são muito fortes fisicamente e também precisamos considerar o fator climático. Com jogos com temperatura negativa em boa parte da temporada, fica mais difícil atuar”, comentou.

O meia-atacante Juninho é quase uma exceção brasileira ao futebol inglês. Depois de duas excelentes passagens pelo Middlesbrough (1995 a 1997 e 2002 a 2004), Juninho fez história em um clube considerado mediano no país. Para ele, apesar da forte marcação na Premier League, a movimentação faz os espaços em campo aparecerem. “O jogo é mais corrido, mais leal, os jogadores não tem tanta malícia. Os juízes estão mais preparados: não marcam muitas faltas e deixam o jogo correr”, avaliou Juninho.

Mudanças no estilo de jogo

Para Mirandinha, o futebol disputado no Velho Continente mudou muito na última década: dos tradicionais longos lançamentos, o futebol inglês começou a ganhar novo corpo – e estrutura. Com uma importante contribuição da presença dos estrangeiros. “Franceses e holandeses contribuíram para o futebol da Inglaterra. Hoje, o brasileiro tem maior facilidade para jogar no país”, garante o ex-jogador.

Sylvinho, no entanto, afirma que o tradicional estilo do inglês nos gramados permanecerá por muitos anos – principalmente a vocação defensiva de seus times. “Ao chegar no Arsenal, aprendi a defender. Quando ingressei ao futebol espanhol, no Barcelona, me sentia mais completo”, explica.

Assim, o atual auxiliar técnico do Náutico revela estar surpreso com a rápida adaptação do meia Oscar, ex-Internacional, no Chelsea. “Poucos comentam a facilidade como que ele entrou em um time que nem totalmente ajustado está”, finalizou.

Confira o número de brasileiros na Premier League entre 2002 e 2013

Para toda regra, há uma exceção

Em fevereiro, o jornal britânico Daily Mail elaborou uma lista de dez nomes com os piores brasileiros que já disputaram a primeira divisão inglesa. Entre eles está o volante Kleberson, ex-Atlético Paranaense. Peça importante na conquista do Mundial de 2002, na Coreia e no Japão, o brasileiro foi apresentado ao lado do jovem – e até então promessa – Cristiano Ronaldo no Manchester United, em 2003. Em duas temporadas, ele fez 30 jogos e marcou dois gols, até ser vendido para o Besikitas, da Turquia.

O lateral-esquerdo André Santos também figura a lista. Antes mesmo de deixar o Arsenal para vestir a camisa do Grêmio, o jogador ficou marcado pela troca de camisa com o ex-ídolo do time de Londres, o holandês Robin Van Persie, em um intervalo no clássico contra o Manchester United, fato que irritou a torcida do seu clube.

Também são lembrados jogadores que foram contratados após atuações de destaque na seleção brasileira. Mirandinha é um deles. Branco (Middlesbrough), Roque Junior (Leeds) e Julio Baptista (Arsenal) também aparecem na lista.

Confira casos de sucesso: Juninho, Gilberto Silva e Edu

Uma posição, contudo, merece destaque. O tradicional camisa nove brasileiro,, centroavante, não sai da memória de parte dos torcedores ingleses. E não faltaram tentativas – todas resultadas em fracassos:  Jardel (Bolton), Ilan (West Ham), Afonso Alves (Middlesbrough) e Jô (Manchester City e Everton). Juntos, os quatro jogadores atuaram por seis temporadas na Inglaterra e marcaram 20 gols ao todo. Afonso Alves foi o artilheiro do “time das decepções”, com 10 gols em 47 jogos. Em sete partidas, Jardel não conseguiu balançar as redes inglesas em nenhuma ocasião na temporada 2003/2004.

Sylvinho, por sua vez, compreende o cenário e compara o ucraniano Andriy Shevchenko, maior ídolo da história do país do leste europeu, à situação vivida pelos brasileiros. “Eu vi o Shevchenko fazer muito sucesso no Milan. Quando chegou ao Chelsea, decepcionou”, finalizou. Falta, agora, quebrar essa premissa.

Foto: Sot_kat

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