O basquete precisa dos clubes de futebol?

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Palmeiras e Flamengo são os clubes de “camisa” que disputam a temporada atual do NBB. (Foto: LNB/Divulgação)

Por Milena Antunes

Há décadas, quadras brasileiras de basquete são representadas por camisas tradicionais das principais equipes de futebol do país. Muitas, ao longo dos anos, abandonaram a modalidade por uma série de razões. Agora, esse fenômeno começa a ressurgir no esporte – que já foi o segundo mais praticado no país. Esse retorno, no entanto, abriu espaço para discussões. No grupo dos que defendem as agremiações de futebol, a justificativa é basicamente financeira: um time popular atrai mais torcedores, mídia e, consequentemente, patrocinadores, lucros e melhores contratações. É um ciclo. Seria um caminho mais curto para desenvolver o basquete no Brasil.

O lado que se opõe a essa ideia defende as cidades como celeiros de grandes equipes, a exemplo de Franca, onde o esporte da bola laranja é a principal referência. O discurso é de que os clubes de futebol – raras as exceções – não fazem investimentos em longo prazo, enquanto parte do público – em determinados momentos – pode ser representado por torcidas organizadas que afastam espectadores já existentes, protagonizando assim ações violentas, que não condizem com a recente história do esporte.

Alberto Bial, técnico do Basquete Cearense, é um dos principais formadores de equipes do Brasil. Irmão do jornalista Pedro Bial, Alberto Já fez um trabalho consistente em Joinville, e está à frente do projeto que trouxe o primeiro time do nordeste para o NBB. Ele, apesar de defender a paixão de cidades pelo basquete, acredita que os clubes de futebol podem fortalecer o esporte. “As grandes equipes do mundo são Barcelona e Real Madrid. No futebol – e no basquete – eles são grandes. A volta de times como esses  pode tornar o nosso campeonato valioso”, avalia.

Tradição da cidade x tradição da camisa

Os principais campeonatos de basquete no Brasil começaram na década de 1960. Em 1965, foi organizado o primeiro torneio nacional, o Troféu Brasil, que, 25 anos depois, foi substituído pelo Campeonato Brasileiro. Em 2009, teve início o Novo Basquete Brasil (NBB), primeiro campeonato liderado por uma liga independente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).

Desde aquela época, vários clubes de futebol tiveram foram representados no basquete. Corinthians, Botafogo, Palmeiras, Vasco, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Vila Nova (GO) e Sport Recife são alguns dos times que participaram da competição. O Corinthians passou por uma época de ouro nos anos 60. No elenco, contava com boa parte dos atletas da seleção brasileira, e conquistou três vezes o Troféu Brasil. No Campeonato Brasileiro, em outra geração, eles ficaram com o título em 1996. Vasco e Flamengo têm duas conquistas nacionais cada, já nos anos 2000. Vila Nova, Botafogo e Palmeiras também já conquistaram o título entre os anos de 1960 e 1980.

A tradição, no entanto, é bloqueada por apenas um dado. Todos os resultados somados por essas equipes não superam as conquistas do time de Franca, considerado o mais tradicional do país, com dez títulos brasileiros. A extinta equipe do EC Sírio se mantém na história como a segunda maior campeã nacional: foram sete conquistas. Atrás deles vem a também extinta equipe do CA Monte Líbano, com cinco triunfos, conforme mostra a arte a seguir:

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No quesito tradição, é inquestionável a participação dos clubes tradicionais na história do basquete. Entre os atletas, o jogador Oscar, considerado por muitos o melhor atleta brasileiro do basquete de todos os tempos, além de ter iniciado a carreira no Palmeiras, foi campeão com o Corinthians e encerrou a carreira no Flamengo. Um dos grandes problemas desses clubes, porém, é a efemeridade dos investimentos. O carro-chefe das grandes equipes é o futebol. Ao primeiro sinal de crise, os esportes amadores são os primeiros na lista de corte. Foi o que aconteceu em outra modalidade. Em 2011, o Santos montou um time de estrelas no futsal, mas extinguiu a equipe em apenas uma temporada para destinar o dinheiro à evolução do seu departamento de futebol. Com o basquete não foi diferente. Vários clubes que deixaram o esporte em algum momento priorizaram a modalidade de interesse número um. Apesar de apoiar o retorno das equipes de “camisa” no basquete, o novo presidente da Liga Nacional de Basquete (LNB), Cássio Roque, que assumiu o cargo em 2012, pede seriedade.

“Queremos projetos longos e que tenham sequência. Não tenho interesse em clubes que entrem apenas para disputar uma temporada e depois saiam pela porta do fundos. Quanto mais os clubes de camisa entrarem no NBB, mais visibilidade e investimento nós teremos”, disse em sua primeira entrevista como presidente da entidade. Ele lembrou também de outras equipes tradicionais, que poderiam voltar ao cenário nacional.

“Temos muitas pessoas com boas intenções em montar novos times de basquete no país. Quem sabe esses profissionais não tragam de volta outros clubes tradicionais, como o Vasco, por exemplo, que teve muito sucesso no fim dos anos 90″, acrescentou. Apesar da torcida pelo retorno de clubes tradicionais, que teoricamente trariam visibilidade para o basquete, há quem acredite que o melhor meio de desenvolver o esporte é o investimento em cidades que podem abraçar a equipe. Franca é exemplo de cidade que tem o basquete como referência sem precisar da popularidade de um clube de futebol.

Rodrigo Cicone é formado em educação física e marketing esportivo, e desenvolveu um estudo sobre as diferenças entre a evolução do basquete e do voleibol no Brasil, pela Universidade de Campinas. Em sua tese, ele defende a ideia de crescimento sustentável. “Sempre que um clube de futebol investe em outra modalidade devemos ter o pé atrás. O Flamengo mantém o basquete há muitos anos, mas tem um histórico enorme de dívidas trabalhistas. O Palmeiras tem um bom trabalho de base, mas é igual ao de outros clubes, como Pinheiros e Paulistano. Um time terá público se estiver bem localizado. Cidades no interior, ou com poucas opções de lazer e esporte em que as pessoas possam se espelhar geralmente conseguem um sucesso maior. Veja o exemplo de Franca. Mogi das Cruzes também. Mesmo quando era Corinthians, a maioria esmagadora da torcida era de cidadão da cidade. Nesse retorno, eles surpreenderam. Já lotaram o ginásio na final da Supercopa, e surpreenderam com a melhor média de todas as equipes do NBB, mesmo com nove anos sem atividades. É isso que faz a diferença”, opinou.

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Franca é exemplo de cidade que tem o basquete como referência sem precisar da popularidade de um clube de futebol. (Foto: LNB/Divulgação)

O retorno do público

Na teoria, ter um time de renome do futebol no basquete poderia transferir a popularidade da camisa para o esporte, funcionando como um atalho para atrair de forma mais rápida o público, e, consequentemente, angariando investimentos. Na prática, a realidade é totalmente diferente.

Nas últimas edições em que o Campeonato Brasileiro Masculino teve como organizadores a CBB, os clubes já sofriam com a falta de investimento. Alguns, incluindo o COC/Ribeirão Preto, fecharam as portas, e a situação impulsionou a criação de uma liga independente, que atendesse as necessidades econômicas dos times. A primeira tentativa foi a Nossa Liga de Basquete, liderada pelo ex-jogador Oscar. Mas apenas com a criação da LNB e o NBB o formato teve sucesso.

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Cadeiras vazias denunciam público abaixo do esperado nos jogos do Flamengo, no Rio de Janeiro. (Foto: LNB/Divulgação)

Desde 2009, a LNB faz um trabalho para reestruturar o basquete, e voltar a atrair a atenção. Em parceria com a Rede Globo e o Sportv, gradativamente, os resultados têm aparecido. A Liga não divulga os números oficiais, mas admite que houve aumento no público que acompanha o NBB. Desde a terceira edição, a organização divulga um ranking, com a média de espectadores de cada clube.

No ciclo 3, Franca e Brasília lideraram as estatísticas, com cerca de 2 mil torcedores em cada jogo, apenas na fase de classificação. Durante os playoffs os números aumentaram consideravelmente.

Na edição do ano passado, o time de Brasília obteve novamente as melhores médias, seguido pelo São José dos Campos, sensação da temporada 2011/12, e novamente por Franca, mesmo com a má fase da tradicional equipe do interior.

O Flamengo, único time de futebol que integra o NBB desde o início, teve boas médias no primeiro ano, como consequência da campanha, que levou o rubro-negro ao título da temporada. A média total, porém, não chegou a ultrapassar os números de outras equipes não vinculadas ao futebol.

Na temporada passada, os cariocas chegaram aos playoffs e eram apontados como um dos favoritos ao título. Mesmo assim, o Flamengo teve média inferior a mil torcedores durante a temporada.

Para o ciclo 2012/13, o clube abriu os cofres, e contratou vários nomes de peso, como o ala Marquinhos, e o pivô Olivinha, ambos ex-atletas do Pinheiros. Com uma sequência recorde de 20 jogos sem perder, a equipe atraiu a torcida. A média subiu para cerca de 1.500 torcedores por jogo, mas não foi suficiente para bater o público de outros times no primeiro turno: Mogi Basquete e Franca, dois pólos tradicionais do basquete, ficaram com as primeiras posições, respectivamente. O Basquete Cearense, que experimenta a primeira temporada no NBB, ficou em terceiro. O Flamengo, mesmo com toda a euforia pela sequência de vitórias do time, ficou apenas em quarto lugar no ranking.

Confira também: média do público por equipe

Para aumentar o público, a diretoria do Flamengo cogitou mudar de ginásio. Atualmente, eles jogam no Tijuca Tênis Clube, espaço com capacidade para 2 mil torcedores. Mas ao que parece, por enquanto, o projeto não seguirá adiante. Na contramão da maioria das equipes, que registrou aumento de público no segundo turno da competição, o Flamengo sofreu uma baixa considerável, segundo a própria direção do clube. Nos últimos quatro jogos com mando de quadra, o clube aumentou o valor dos ingressos, e o público diminuiu em quase 500 pessoas por partida – agora são 1018, o que leva os cariocas para o sexto lugar no ranking. Após a derrota para Franca, a primeira do time no dia 16 de fevereiro, o rubro-negro registrou uma das piores médias da temporada, com menos de mil pessoas no ginásio.

O Palmeiras, no quesito público, tem ainda mais motivos para se preocupar. A diretoria esperava um bom número de torcedores por causa do apelo que tem o nome Palmeiras, mas fechou o primeiro turno com média de 660 pessoas por jogo. Entre os quatro estreantes da competição – os outros são Mogi Basquete, Basquete Cearense e Suzano – o alviverde tem a segunda pior média, e apesar de registrar um pequeno aumento no segundo turno, esse dado é um tanto ilusório. O número subiu por causa do público de apenas um jogo. Contra Mogi das Cruzes, primeiro confronto com torcida rival presente (não entra para a contagem), o Palmeiras registrou a melhor média da temporada, com cerca de 800 torcedores, além dos 62 presentes da torcida rival.

A questão da violência

São poucas as ocorrências de violência entre torcidas de basquete. Nas quatro primeiras edições do NBB, não houve nenhum registro de confusão entre públicos adversários. A situação, contudo, mudou neste ano – e com um clube protagonista de problemas fora de campo: o Palmeiras.

No último sábado, a equipe jogou no Palestra Itália contra o Mogi Basquete. Um grupo de 62 torcedores foi ao ginásio rival, e sofreu com as ameaças dos adversários. Com o jogo em andamento, alguns torcedores uniformizados da Mancha Verde se aglomeraram próximo ao local reservado para os visitantes, para tentar invadir. Eles alegaram que os mogianos teriam cantando um hino do Corinthians, mas nenhuma testemunha confirma. A polícia militar teve de intervir duas vezes para evitar uma confusão maior. Além da torcida, os palmeirenses teriam agredido também dois atletas de Mogi das Cruzes.

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Esse não foi o primeiro caso de confusão criada pela torcida do Palmeiras neste NBB e na temporada atual do basquete. No primeiro turno, eles já tentaram numa emboscada contra a torcida organizada do Flamengo, impedida pela polícia militar. Cerca de 20 pessoas foram presas.

Essa é a situação que mais preocupa no retorno dos times de futebol ao esporte. Segundo pesquisa IBOPE, o público do basquete é formado basicamente por famílias, e tem uma boa fatia de seu público formado por crianças e adolescentes até 15 anos, além de mulheres. Quem acompanha, afirma que torcer, atualmente, é tranquilo.

“Não importa a cidade aonde vamos, sempre que o juiz apita o final dá para conversar com a torcida adversária, brincar. É tudo por um basquete saudável”, diz o torcedor Wagner Lorijola, de Mogi das Cruzes, e que esteve na confusão no último sábado.

O retorno das torcidas organizadas aos ginásios deixa o torcedor apreensível, e pode afastar o público que hoje acompanha o esporte.

“Quem estava com criança teve que sair correndo com ela no colo. Isso não é basquete. Eu acompanho sempre, e há muitos anos. Se tiver organizada de futebol em algum lugar, eu não vou mais. É perigoso”, revelou uma torcedora que não quis se identificar.

De fato, foram muitos os confrontos entre torcidas que modificaram entre os anos de 1990 e 200 o público que acompanhava o basquete, principalmente no Rio de Janeiro (veja alguns casos). A rivalidade entre Vasco, Flamengo e Botafogo já teve registros de brigas generalizadas, e até morte de torcedores. A queda nos registros de violência, curiosamente, se deu conforme os times de clubes de futebol deixaram o basquete. No campeonato nacional, o Vasco, que travou os confrontos mais violentos do basquete brasileiro, parou de disputar em 2003.

Em 2006, aconteceu a última competição que reuniu mais de uma equipe de tradição no futebol. Na época, São Paulo, Flamengo e Sport Recife eram os únicos que se mantinham na competição, mas a rivalidade se mantinha nos torneios estaduais.

Desde 2008, não há encontros entre times de “camisa” no basquete. Agora Palmeiras e Flamengo dividem a tabela pela primeira vez em cinco anos, mas a rivalidade – pelo menos de estados – ainda não é acirrada. Para o próximo semestre, o Fluminense já tem um projeto em andamento, e deve competir no Campeonato Carioca e reeditar nas quadras a rivalidade do Fla-Flu. É mais um motivo para levar mais e mais pessoas às quadras. Mas sem violência.

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