Amazonas sem divisão

Por Rafael Campos e Carina Bordalo

Arena Amazônia em reforma para a Copa do Mundo

O dia 31 de maio de 2009 está marcado na história dos amazonenses. A data, que credenciou Manaus a uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi celebrada com muita festa entre a população local. O mesmo, contudo, não pode ser dito aos vizinhos paraensenses, concorrente direto na região norte do país. O motivo da revolta é controverso: segundo eles, Amazonas não tem tradição alguma no futebol. Nenhum de seus clubes jamais teve relevância nacional e, há muito tempo, não figura nas grandes competições do Brasil – só o São Raimundo esteve na Série B até 2006.

O Pará, por sua vez, teve o Paysandu como referência na primeira divisão do futebol brasileiro em duas oportunidades: 2003 e 2005. O Papão, como também é conhecido, também conquistou a Copa dos Campeões de 2002, credenciando-se assim a uma vaga na Copa Libertadores da América do ano seguinte – quando obteve uma vitória histórica sobre o Boca Juniors em La Bombonera. A última vez que um clube amazonense disputou a Série A do Brasileiro foi em 1986 (Nacional-AM). De lá pra cá, nenhum time repetiu a façanha. Ademais, as equipes colecionam fracassos na Série D e na Copa do Brasil.

“Nada nos impede de ter um time na Série A do Campeonato Brasileiro em 2014″, disse Eduardo Braga, governador do estado na época da confirmação de Manaus como sede da Copa. Em 2013, os amazonenses continuarão na série D. Episódios recentes sugerem que o malogro do futebol do Amazonas passa por, pelo menos, dois fatores: falta de estrutura física, uma vez que a capital não tem nenhum estádio público funcionando atualmente.

Manaus, uma capital sem palco para o espetáculo do futebol
A Arena da Amazônia é um dos estádios da Copa que mais preocupam a FIFA: 52% total das obras foram concluídas em dois anos e meio. Esse mesmo período é o tempo que os times do Amazonas ficaram sem estádio na capital (Manaus) para disputar seus jogos, sejam eles do Campeonato Amazonense ou dos nacionais – Copa do Brasil e Série D do Brasileirão.

Atualmente o estadual tem a maioria de seus jogos realizados em cidades do interior. Poucas partidas são disputadas no Estádio Pedro Simonsen, pertencente a uma instituição ligada à indústria. A razão é evidente: capacidade de apenas 5.000 torcedores. Em 2010, o América-AM, que disputava a Série D, teve de mudar um jogo contra o Joinville-SC para a cidade de Santarém, interior do Pará: uma das exigências da competição era ter um estádio com capacidade mínima para 10.000 pessoas em algumas fases do torneio.

“Não temos um estádio para ter o torcedor ao nosso lado. Talvez se tivéssemos jogado em casa teríamos conseguido resultados melhores, até mesmo o título”, disse a então presidente do time amazonense, Bruna Parente. O América chegou a ser vice-campeão da Série D naquele ano, mandando uma das partidas da final no interior do Pará. Mas, no fim das contas, o título nada valeria, porque o time foi punido por escalação irregular de um jogador e foi eliminado. Entenderemos esse episódio mais abaixo nesta reportagem.

Uma tentativa de resolver o problema é a reforma do Estádio Ismael Benigno, a Colina, que pertence ao São Raimundo. Localizado na zona oeste de Manaus, o campo conta apenas com sua parte coberta das arquibancadas, com capacidade para cerca de 1.000 torcedores – o restante foi interditado por falta de estrutura. Com a escolha para sediar jogos da Copa, o governo do estado disse que reformaria a Colina, transformando-a em um Centro de Treinamento para as seleções que estarão em Manaus. A obra seria iniciada em 2009 e teria duração de oito meses. O projeto, até agora, não saiu do papel.

Em 2013, após muitas promessas, o governo anunciou que a reforma seria iniciada depois da liberação de R$ 21 milhões do governo federal. “A Colina é o primeiro CT da Copa de 2014, e as obras iniciarão neste mês (fevereiro). Estamos em busca de mais um espaço para construir um terceiro campo oficial. A princípio, estamos em contato com o Exército para tentar conseguir uma área no São Jorge, Zona Oeste. Se não conseguirmos, vamos tentar a Zona Norte”, garantiu o governador Omar Aziz, no fim de janeiro. Mais uma vez: a reforma ainda não começou.

Amadorismo que custou vaga na Série D e prejudica as categorias de base
Dois episódios recentes ajudam a ilustrar os problemas dos dirigentes amazonenses na gestão de seus clubes. A perda do acesso à Série C pelo América-AM, em 2010, e o abandono de jogadores da base do Nacional-AM em um aeroporto de São Paulo, após a eliminação da Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano.

Em 2010, o América-AM disputou a Série D do Brasileiro, após se credenciar conquistando o estadual de 2009. Com poucos investimentos, o clube conseguiu montar um bom elenco – para os padrões do futebol do norte. Além disso, a equipe teve que mandar suas partidas fora do estado a partir da segunda fase da competição porque o Amazonas não tinha um estádio que atendesse as exigências da CBF, como citado acima. Apesar das dificuldades, o “Mequinha” fez ótima campanha chegando a final e se sagrando vice-campeão, ao ser derrotado pelo Guarani de Sobral, do Ceará, na final. Com o segundo lugar, os amazonenses eram só alegria, já que garantiam com isso uma vaga na Série C do ano seguinte. Porém, esse era o começo de mais uma frustração.

Pouco depois, o América perdeu o acesso à terceira divisão nacional, assim como o posto de vice-campeão da Série D. O Joinville, de Santa Catarina, que havia sido derrotado pelos amazonenses nas quartas de final, denunciou o rival por ter escalado um jogador de maneira irregular. A CBF confirmou que um atleta do América havia jogado contra o Madureira, na semifinal, mesmo suspenso por ter recebido o terceiro cartão amarelo na partida anterior.

Após a eliminação do América, dirigentes do clube e a Federação Amazonense de Futebol (FAF) entraram em conflito. “A FAF não nos avisou na época que o atleta estava suspenso por ter recebido o terceiro amarelo”, disse a então presidente do América-AM, Bruna Parente. Um dos diretores da Federação, Ivan Guimarães, rebateu a mandatária ao afirmar que esse tipo de preocupação deve ser da diretoria do time. Nesse embate quem saiu prejudicado foi o torcedor.

Três anos depois, o futebol do Amazonas voltou a demostrar certa falta de profissionalismo. O Nacional-AM foi o único clube amazonense a participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior. A campanha não foi das melhores: duas derrotas e uma vitória que fizeram o treinador Darlan Barroso anunciar sua saída. “Não temos apoio nenhum do próprio Nacional-AM. Gastei do meu próprio bolso para trazer os garotos”, afirmou Barroso.

O triunfo sobre o Paulista de Jundiaí, por 3 a 1, havia sido um consolo para os garotos da equipe, mas eles não sabiam que passariam por um drama. Dois dias após o último jogo na Copinha, os atletas deveriam retornar à Manaus, mas sem dinheiro para as passagens um grupo de cinco jogadores teve que ‘morar’ no Aeroporto de Guarulhos por dois dias, sem comida e sem conforto. A revolta foi manifestada no Facebook. “Olha nossa situação! Estamos jogados aqui há mais de 48h. Sem noticias de nada”, escreveu o goleiro Diego Ferreira na rede social. O colega Giovanny Gama também ficou revoltado. “Só nós sabemos o que estamos passando. Fome. Cansado até demais. Saudades da família.”.

Amazonas tenta evitar “elefante branco”

O investimento na Arena Amazônia é de cerca de R$ 550 milhões. A preocupação, contudo, é repetir os mesmos problemas apresentados após a disputa da última edição da Copa do Mundo, em 2010, na África do Sul: estádios sem a prática desportiva.

O Campeonato Estadual do Amazonas tem duração apenas de seis meses. No resto do ano, os times tem a Série D do Brasileiro, porém, o desempenho das equipes locais tem sido fraco, como mostrado acima.

Mesmo com todos os fatores que pesam contra, as autoridades amazonenses responsáveis pela organização da Copa garantem medidas para evitar que a Arena da Amazônia se torne um “elefante branco”. O coordenador da Unidade Gestora do Projeto Copa no Amazonas (UGP Copa), Miguel Capobiango, afirma que a utilização da Arena da Amazônia não se restringe apenas ao futebol.

“Nós estamos construindo um centro de convenções ao lado da Arena da Amazônia, justamente para que, a medida que eventos sejam realizados lá, a Arena possa ser utilizada nesses eventos também”, afirmou o coordenador, antes de confirmar que um dos setores do estádio vai funcionar como um shopping.

“Uma parte do estádio, assim como aconteceu na África do Sul, vai ser destinada ao uso comercial. Com isso nós esperamos que ele possa funcionar o ano todo, mesmo sem competições de futebol”, acrescentou. Além dessa medida, o coordenador diz que há possibilidade da administração da Arena da Amazônia fechar contratos com empresas que promovam grandes shows no estádio.

“Vamos fazer uma licitação. Nada impede que grandes shows sejam realizados na Arena da Amazônia. O importante é que esse estádio e a Copa são muito importantes para o povo de Manaus, que tem uma carência muito grande no futebol. Além disso, o estádio foi projetado para parecer uma bacia de farinha (recipiente regional para armazenar farinha de mandioca), algo bem regional mesmo, que pode atrair turistas do mundo todo, tornando-se um ponto turístico da cidade”, emendou o coordenador da UGP Copa no Amazonas.

Foto: Copagov.

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Como as manipulações mancham o futebol

Por Dênis de Lima e Murillo Lopes

Juventus, uma das equipes envolvidas no “Calciopoli”

Trezentos e oitenta: este é o número de partidas de futebol suspeitas de manipulação em importantes competições disputadas no mundo, de Liga dos Campeões da Europa a eliminatórias para a disputa da Copa do Mundo. É como se uma partida, em dez edições ininterruptas do Campeonato Brasileiro, tivesse um resultado adulterado por bandidos. É terrificante.

No último dia 4, a Europol (polícia europeia) descobriu um esquema de corrupção envolvendo mais de 15 países. Ainda de acordo com a organização, já está provado que houve manipulação de jogos em 150 casos. As manipulações aconteceram em função do mercado de apostas feitas na internet: assim que a partida era escolhida, a quadrilha procurava juízes, jogadores e/ou dirigentes que participariam dos jogos e os subornava. O resultado era combinado de modo a beneficiar certo grupo de apostadores. Também de acordo com a Europol, a quadrilha atua na Europa e na Ásia e obteve o equivalente a 21 de milhões de reais em lucro com a manipulação de resultados. Com esse dinheiro, é possível comprar cerca de 1.000 carros populares.

Outros casos de manipulação tiveram repercussão internacional: o “Calciopoli”, na Itália, envolveu as equipes Reggina, Fiorentina, Lazio, Milan e Juventus. Os times foram acusados de selecionar árbitros para controlar os resultados dos jogos. 14 partidas foram investigadas. O caso foi descoberto em maio de 2006 e os times foram punidos: Lazio, Reggina, Milan e Fiorentina iniciaram a competição do ano seguinte com pontos negativos (respectivamente, 3, 11, 8 e 15) e a Juventus, além de perder os títulos de 2005 e 2006 do Campeonato Italiano, foi rebaixada para a 2ª divisão e iniciou a competição seguinte com nove pontos negativos. Dirigentes de equipes e juízes também foram punidos: receberam suspensão do futebol, de três meses a cinco anos. Por exemplo, o árbitro Massino de Santis foi suspenso por quatro anos.

Resultados manipulados não são exclusividade do Velho Mundo. A “Máfia do Apito” interferiu em várias partidas do Campeonato Brasileiro de 2005. O esquema contava com golpistas de sites de apostas e juízes de futebol. Os resultados eram combinados com os juízes e a quadrilha obtinha lucros milionários com apostas feitas na internet. Um dos árbitros envolvidos, Edilson Pereira de Carvalho, admitiu ser parte do esquema e foi banido do esporte. 11 partidas do Campeonato Brasileiro daquele ano tiveram que ser jogadas novamente – a ideia era anular a atuação de Carvalho na competição.

A Alemanha também não escapou. No começo de 2005, foi descoberto que o juiz Robert Hoyzer era pago por apostadores croatas para influenciar o resultado dos jogos. Das 13 partidas manipuladas, a que mais teve repercussão foi Paderborn x Hamburgo, pela Copa da Alemanha. Dois pênaltis marcados por Hoyzer (o que eliminou o Hamburgo, pois ele perdeu por 4 a 2) despertaram a confiança de algumas pessoas  e, graças às denuncias de outros árbitros, a ligação entre Hoyzer e os croatas foi descoberta. O juiz ficou preso por mais de dois anos e foi banido do esporte, os croatas receberam penas de até três anos de prisão e o Hamburgo recebeu 2 milhões de euros como compensação por ter sido indevidamente eliminado da Copa da Alemanha.

Manipulação: é possível evitar?
Tanto a FIFA, quanto o comitê organizador da Copa foram questionados por esta reportagem sobre medidas para evitar que a manipulação de resultados volte a acontecer. É um assunto importante, especialmente considerando que a Copa acontece no ano que vem. Entretanto, nenhum deles respondeu. Jornalistas Esportivos também receberam perguntas por e-mail sobre o assunto, mas apenas um se dispôs a falar: Juca Kfouri. Abaixo, a entrevista:

Recentemente, a Europol descobriu que muitas partidas ao redor do mundo tiveram os resultados manipulados. Como isso afeta a credibilidade do esporte? Como o público se sente em relação a isso? Afeta de maneira grave e gera profunda desconfiança no torcedor.

O que a FIFA pode fazer para impedir a manipulação de resultados? Existe alguma iniciativa específica para isso? Muito pouco, porque a praga das apostas via internet é incontrolável.

Que punições a FIFA e a Justiça dos países onde os jogos manipulados aconteceram vão dar aos envolvidos (juízes, jogadores, apostadores etc)? Quando pegos, devem ser sumariamente banidos.

Como evitar que manipulações aconteçam na Copa 2014? O Brasil conseguiu aprender alguma coisa com o escândalo da Máfia do Apito em 2005 para evitar que algo semelhante volte a acontecer? Não vejo como. E não aprendemos nada, até porque quem comanda o futebol brasileiro não é flor que se cheire, ao contrário.

Veja a Linha do Tempo dos escândalos e o gráfico comparando o número de partidas manipuladas em cada uma das ocasiões.

Foto: Bianconero.